sexta-feira, 20 de outubro de 2017

SOMOS TODOS ASSIM



             
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Em Jaboque lutei com um forte anjo e venci
Encontrando Esaú no meu caminho, de medo tremi.
Quando ele já não me era uma ameaça,
Lhe ofereci presentes em troca da minha vida
Deitei a minha esperança sob uma árvore
Não queria ver a foice da morte ceifá-la
Meus olhos se abriram como uma mágica
Vi o poço que me segredou: “não tenha medo”.
Matei sem assombro, quatrocentos profetas de baal
Pelo deserto, apressado, de medo de Jezabel, fugi
Em uma caverna, fria, sombria, me escondi
Não sabia! Uma carruagem me esperava para subir
Malhando o trigo com medo dos midianitas,
Soube por um anjo que eu os venceria
Apavorado ainda pedi duas grandes provas.
Com trezentos homens, milhares venci.
Me escondi sem medo no porão de um navio.
Desviando-me da ordem de Deus, fui para Tarso
No ventre do enorme peixe, por medo decidi
Obedecer a Deus e seguir para Nínive.
Pedi ao Mestre para andar por sobre as águas
Ele prontamente atendeu ao meu desejo.
Olhando para a força das ondas agitadas
Tive medo, embora Jesus estivesse ali.
Por Guiomar Barba
22.12.2016

FIO DE ESCARLATA


Eu, Raabe, mulher escrava da deusa prostituição,
dos caprichos de seus devotos cativa
No cimo da condenada muralha 
Em minha triste solidão, da minha janela
Por algum momento, vislumbrava:
No deserto do sul
vindo o meu resgate.

Quem dera livre desse meu mundo profano, da minha vil identidade!
Nas ruas de Jericó entre os mercadores soubera,
Que do Egito, o Deus dos céus e da terra vinha
Ao romper o Mar Vermelho como cortina
sobre suas asas trazendo o seu povo à terra da promessa.
Entre os dias sombrios em Jericó já a mim estranha,
De repente, com o vento sul, jazem a minha porta os mensageiros da esperança

Eu, por uma estranha intuição, de súbito lhes falei: já sei quem sois, do povo do Deus do céu e da terra;
Sem demora lhes roguei: misericórdia para minha miséria de ser quem sou e pertencer a um povo por si já condenado...
Em meu abrigo os escondi
E como Noé, lhes roguei: permitam-me minha família em minha arca salvar
De pronto, favorável me foram, somente que à janela da minha esperança o cordão de fio escarlata atasse e meus entes sobre minha casa os detivesse.

Prontamente os fiz.
Agora, horas, dias a fio na minha resoluta espera...
Enfim, o terrível dia da espada do Juízo sobre o meu povo
Chegou!
Em meio ao caos das chamas, a mim, como canção de alegria, se me declara: bem vinda Oh mulher pela tua fé! recebes com os teus, o resgate do cordão de fio de escarlata
E adentra a corte de Judá,
A sagrada linhagem do Messias.
Por Jairo Cavalcanti Rocha (Meu mano)

TERRA SECA

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Quando secaste dentro de mim ó minha fonte?
Tu que lavavas o meu rosto no mais cálido ardor do sol
Que em asas me conduzias para além das montanhas
E me fazias repousar em vastos paraísos verdejantes.
Sinto o barulho dentro de mim de terra seca, rachando.
Já não ouço da minha cascata o som das serenatas
Meus olhos já não se embaçam com as lágrimas
Que rolando destorciam as imagens do meu querer
Se eu temesse a escuridão das noites do deserto
Diria que as aves rapinantes prenunciam morte
Vejo miríades de insetos famintos a minha volta
Com seu veneno cruel esperando o tempo à hora
Perscruto os céus negros, antes pontilhado de estrelas
Escuto o estrépito romper-se de fios de esperanças
Vejo a cada passo, sombras que se movem ameaçadoras
Fantasmas que surgem sugerindo ser reais e de presságios
Cambaleante, sem mais argumento para lutar e viver
Senti renascer dentro de mim uma força teimosa
Uma desafiante fome de sobreviver à força do deserto
Volto a escutar a voz firme da minha cascata que me canta
O deserto há de florescer e os pássaros irão cantar...
Guiomar Barba.
07.11.2016

CIDADÃO (Zé Geraldo)

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Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer
Tá vendo aquele colégio moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Esta dor doeu mais forte
Por que que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer
Tá vendo aquela igreja moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá sim valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que cristo me disse
Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar.

MEU PAPITO


    LAÇO DE CARNE

A nossa distância era apenas geográfica,
quando a morte o arrancou de mim.
Mas meu coração viu sua partida — Ele me avisou.
Chorei baixinho, quase não acreditei.

Senti a dor da amputação de um membro;
era como se houvessem me arrancado uma perna.
hoje ainda me pergunto: por que a vergonha?
Estávamos presos por laço de carne.

Foi necessário o processo da sua ausência;
entendi o significado de sair do seu corpo,
para depois caminhar pelas ruínas do luto.
O tempo não apagou seu rosto, seu riso.

Hoje seria seu aniversário — eu me lembro.
Alguém lhe faria um afago, e você riria feliz.
Por trás do seu caráter austero,
Havia o pai, a criança, o meu querido velho.
.
Te amarei sempre papito.

Por Guiomar Rocha.
12.10.2016

Homenagem no seu aniversário: meu amor R E N A T O

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Aninha-se no útero da minh'alma,
Um óvulo fecundado pela esperança,
Esperança adolescente, gestante,
Que adentra um futuro mui distante.
Aninha, abraça, beija um bebê.
Muitas primaveras nostálgicas passaram
Esperançando o meu útero deslizar,
Dispondo berço ao meu sonhado embrião
Que já me chutava inquieto, apressado,
Mas tudo não era mais que uma ilusão.
Até que um dia despontou a primavera,
A mais linda, mais intensa, mais alegre.
Todas as outras, foram tragadas por ela
E eu ouvi o meu útero sorrir e dizer:
"Estás plenamente grávida mulher!"
Era Renato, tocando violão, bateria,
Com as notas agudas do meu coração.
Não posso traduzir esta harmonia,
Todas as belas flores eram minhas,
Todo o céu estrelado me sorria.
Por Guiomar Barba


GRILEIRO

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Não guardamos como grileiro, a nossa certidão de casamento
Não nos esquecemos que nossos corações não são terra negociáveis
Portanto, o nosso amor não se cultiva com o passar do tempo
Mas medra com o carinho das nossas mãos, adubo e água
As flores desabrocham quando chega a primavera
A mesma planta sempre abre o seu pendão de cores.
Quando aquecida, molhada, balançada pelo vento
Esboça toda a sua exuberância ao sabor da vida
A primavera não espera as flores esboçarem nos galhos
Ela vem antes, sorrindo, sob um céu de um puro anil
Em passos de dança, valsas, bailados ou rodopios
Como parceira alegre, fazendo cantar os passarinhos,
Nosso relógio não tem ponteiros de tempo de amor
Suas badaladas constantes, festejam os doces arrulhos.
Não marcamos horas, dias, semanas, meses e anos
Portanto, Ele nunca nos diz que a nossa estação acabou.
Por Guiomar Barba
06.09.2016

ZOLIMPIADAS DO SERTÃO

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Sonhei com as Zolimpíadas
Chegando no meu sertão
Foi o maior espetáculo
Que se viu na região
Tinha gente que só a peste
Lá das brenhas do nordeste
Chegando de caminhão
No desfile de abertura
A bandeira nordestina
Toda feita de retalhos
Pelas mãos de Severina
E eu ali, de camarote
O bode virou mascote
A tocha era a lamparina
A nossa delegação
Para conquistar os louros
Desfilou de guarda-peito
Gibão e chapéu de couro
E enfrentando a batalha
Conquistou muitas medalhas
de bronze, de prata e ouro
Quem carregou a bandeira
Foi Ritinha de Zé Bento
Já a pira foi acesa
Por Tonin de Livramento
Nosso atleta principal
E recordista mundial
Do hipismo de jumento
Antes das competições
Um lanche bem reforçado
Com buchada, cajuína
Rapadura e milho assado
Fava verde com galinha
Sarapatel com farinha
Angu com bode guisado
Nas águas do Velho Chico
As provas de natação
Os pulos ornamentais
De cima de um paredão
Ginástica num terreiro
Remo e vela num barreiro
E judô num palhoção
A maratona, seu moço
Era por nossas estradas
Atravessando os riachos
Nas veredas, nas quebradas
Da paisagem nordestina
Ao som do galo-campina
E da patativa golada
Na competição de tiro
Os velhos de bacamarte
Pé-de-bode, granadeira
Vestimenta de zuarte
E davam cada pipoco
Do sujeito ficar môco
De se ouvir em toda parte
A prova de atletismo
Conhecida por carreira
De cem e duzentas léguas
Com barreira e sem barreira
Foi por dentro do cercado
Atravessando um roçado
Pelo meio das capoeira
Os saltos, lá no sertão
Eram provas de “pinote”
De riba de uma barreira
Num pedaço de caixote
O cabra de lá pulava
Num açude tibungava
Caindo feito um caçote
O jogo de futebol
Se jogava sem chuteira
Num campo de chão batido
No alto de uma ribanceira
As traves de barandão
O campo sem marcação
No calor e na poeira
Levantamento de peso
Quem ganhou foi Sebastião
Cinco sacos de Farinha
Três arrobas de algodão
Com esse peso todinho
Ele se ajudou sozinho
E se sagrou campeão
O arremesso de pedra
Quem ganhou foi Expedito
No tiro com baladeira
Carmelita fez bonito
E Já na queda de braço
O ouro foi pra Inaço
E a prata pra Benedito
Fizeram de três batentes
Pódio pra premiação
Com uns ramos de onze-horas
Era a coroação
E numa latada de lona
Asa branca na sanfona
Completava a emoção
E assim eu me acordei
Com orgulho do sertão
Desse povo vencedor
De tão grande coração
De história tão sofrida
Que nas batalhas da vida
Nasceu pra ser campeão
Viva a criatividade nordestina.

24.08.2016
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NO TEMPO DA MINHA INFÂNCIA
No tempo da minha infância
Nossa vida era normal
Nunca me foi proibido
Comer muito açúcar ou sal
Hoje tudo é diferente
Sempre alguém ensina a gente
Que comer tudo faz mal
Bebi leite ao natural
Da minha vaca quitéria
E nunca fiquei de cama
Com uma doença séria
As crianças de hoje em dia
Não bebem como eu bebia
Pra não pegar bactéria
A barriga da miséria
Tirei com tranquilidade
Do pão com manteiga e queijo
Hoje só resta a saudade
A vida ficou sem graça
Já não se pode comer massa
Por causa da obesidade
Eu comi ovo à vontade
Sem ter contra indicação
Pois o tal colesterol
Pra mim nunca foi vilão
Hoje a vida é uma loucura
Dizem que qualquer gordura
Nos mata do coração
Com a modernização
Quase tudo é proibido
Pois sempre tem uma Lei
Que nos deixa reprimido
Fazendo tudo que eu fiz
Hoje me sinto feliz
Só por ter sobrevivido
Eu nunca fui impedido
De poder me divertir
E nas casas dos amigos
Eu entrava sem pedir
Não se temia a galera
E naquele tempo era
Proibido proibir
Vi o meu pai dirigir
Numa total confiança
Sem apoio, sem air-bag
Sem cinto de segurança
E eu no banco de trás
Solto, igualzinho aos demais
Fazia a maior festança
No meu tempo de criança
Por ter sido reprovado
Ninguém ia ao psicólogo
Nem se ficava frustrado
Quando isso acontecia
A gente só repetia
Até que fosse aprovado
Não tinha superdotado
Nem a tal dislexia
E a hiperatividade
É coisa que não se via
Falta de concentração
Se curava com carão
E disso ninguém morria
Nesse tempo se bebia
Água vinda da torneira
De uma fonte natural
Ou até de uma mangueira
E essa água engarrafada
Que diz-se esterilizada
Nunca entrou na nossa feira
Para a gente era besteira
Ter perna ou braço engessado
Ter alguns dentes partidos
Ou um joelho arranhado
Papai guardava veneno
Em um armário pequeno
Sem chave e sem cadeado
Nunca fui envenenado
Com as tintas dos brinquedos
Remédios e detergentes
Se guardavam, sem segredos
E descalço, na areia
Eu joguei bola de meia
Rasgando as pontas dos dedos
Aboli todos os medos
Apostando umas carreiras
Em carros de rolimã
Sem usar cotoveleiras
Pra correr de bicicleta
Nunca usei, feito um atleta,
Capacete e joelheiras
Entre outras brincadeiras
Brinquei de Carrinho de Mão
Estátua, Jogo da Velha
Bola de Gude e Pião
De mocinhos e Cawboys
E até de super-heróis
Que vi na televisão
Eu cantei Cai, Cai Balão,
Palma é palma, Pé é pé
Gata Pintada, Esta Rua
Pai Francisco e De Marré
Também cantei Tororó
Brinquei de Escravos de Jó
E o Sapo não lava o pé
Com anzol e jereré
Muitas vezes fui pescar
E só saía do rio
Pra ir pra casa jantar
Peixe nenhum eu pagava
Mas os banhos que eu tomava
Dão prazer em recordar
Tomava banho de mar
Na estação do verão
Quando papai nos levava
Em cima de um caminhão
Não voltava bronzeado
Mas com o corpo queimado
Parecendo um camarão
Sem ter tanta evolução
O Playstation não havia
E nenhum jogo de vídeo
Naquele tempo existia
Não tinha vídeo cassete
Muito menos internet
Como se tem hoje em dia
O meu cachorro comia
O resto do nosso almoço
Não existia ração
Nem brinquedo feito osso
E para as pulgas matar
Nunca vi ninguém botar
Um colar no seu pescoço
E ele achava um colosso
Tomar banho de mangueira
Ou numa água bem fria
Debaixo duma torneira
E a gente fazia farra
Usando sabão em barra
Pra tirar sua sujeira
Fui feliz a vida inteira
Sem usar um celular
De manhã ia pra aula
Mas voltava pra almoçar
Mamãe não se preocupava
Pois sabia que eu chegava
Sem precisar avisar
Comecei a trabalhar
Com oito anos de idade
Pois o meu pai me mostrava
Que pra ter dignidade
O trabalho era importante
Pra não me ver adiante
Ir pra marginalidade
Mas hoje a sociedade
Essa visão não alcança
E proíbe qualquer pai
Dar trabalho a uma criança
Prefere ver nossos filhos
Vivendo fora dos trilhos
Num mundo sem esperança
A vida era bem mais mansa,
Com um pouco de insensatez.
Eu me lembro com detalhes
De tudo que a gente fez,
Por isso tenho saudade
E hoje sinto vontade
De ser criança outra vez...
Ismael Gaião
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REVELA-TE NAZARENO
Tomé conheceu o teu poder e a tua graça
Testemunhou os teus grandes milagres e curas
Experienciou o teu amor sempre incondicional
Quando contemplavas as multidões exaustas, sofridas
Tomé caminhou contigo passo a passo, na vida
Sabia que nunca negaste com o teu proceder
As palavras que como orvalho, a todos destilavas.
Tua perfeita coerência a favor de Ti confessava
Ele escutou a promessa que vencerias a morte
Tomou contigo do último cálice de vinho
Comeu do pão que repartistes entre todos
Soube quando Judas cavou sua própria sorte.
Ele estava ali, quando derramaste as tuas entranhas
Ouviu teu brado de dor entregando o Espírito
Assistiu todo o drama cruel da natureza ferida
Gemendo pela morte injusta, do Deus justo
Mas Nazareno, Tomé precisou ver as tuas mãos
Precisou meter o dedo incrédulo no teu lado
Para reconhecer o seu Senhor, o seu Deus
E com a voz embargada, de fato, adorá-Lo
Te suplico Filho do Deus vivo, Jesus Nazareno
Mostra a este pobres desviados as tuas mãos, o teu lado
Revela-TE a eles pela tua infinita misericórdia
Para que eles não se percam no ceticismo.
Por Guiomar Barba
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P A P I
Hoje, doze de agosto, seria seu aniversário
Mas você abandonou seu tabernáculo
Voou para além, foi para a casa do seu Pai
Já desfruta da companhia de uma família eterna
Você era tão sério, tão calado, tão sensível.
Lembro-me quando lhe dei meu primeiro presente
Comprei apenas uma toalha de banho
Você sorriu e pulou como uma criança.
Você, de pernas abertas, sentado no chão, sorria
As bolas de gude corriam ágeis com seu toque.
Com os talos do mamoeiro você fazia flautas
Dos seus lábios fazia o mais agudo apito.
Sorrindo, levava-nos sobre os seus pés.
Da janela do trem você nos dizia adeus
Descascava cana e fazia rolinhos para nós
E depois varria toda a nossa sujeira
Pelas madrugadas, mesmo as mais frias
Você se levantava e ia de quarto em quarto
Nos pondo para fazer xixi e depois nos cobria
Era a mamãe a noite e o papai de dia
Ao sentir minhas cólicas, quando eu já “era moça”
Você levantava ao ouvir meu choro de dor
Silencioso, me trazia um chá quente e sofria
Porque não podia me curar, mesmo com tanto amor
Lembro-me bem, papai querido, do seu ciúme
Não me foi fácil ter o primeiro namorado
Eu já não era a sua criança submissa
Mas você fingia que sim.
Um dia estaremos juntos de novo, eu sei
Seremos como os anjos, uma família única
Teremos o mesmo Pai em comum
Nunca mais você precisará sofrer por mim.
Por Guiomar Barba
13.08.2016
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DECISÃO
Ao meio dia o meu sol escureceu
As flores no campo murcharam
A minha esperança desvaneceu
Porque em tudo acreditei.
O vento que me toca é quente
As aves cantam de pura solidão
No meu peito explode trovão
Meu coração é feito de retalhos.
Queria um silêncio perfeito, feito
Quero rever as minhas crenças
Preciso podar meu jardim
Trazer de volta as borboletas
Quero afastar o insano medo
De revolver a história passada
Quero atirar todo este lixo
Não deixar nada fora do lugar.
Por Guiomar Barba
08.08.2016
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CONTRADIÇÃO

De tantos poços secos, poluídos, bebi
Quantas vezes só ouvi o meu próprio eco
Como uma magia de encontros passados
Fantasmas assombrando a minha mente
Com traumas lúcidos sem identidades
Quantas noites com o sol causticante
Quantos dias com estrelas errantes
Confundiram as minhas indagações
Não! Não haviam respostas plausíveis
Olhei para o calvário ensanguentado
Contemplei a mais cruel cena de dor
Ali estava a mais torpe de todas as injustiças
A mais repulsante ironia dos homens
O Nazareno sobrepondo-se ao moralismo
À hipocrisia burlesca destas aberrações
Em uma tosca cruz, ergueu o seu condão
Em um único e inigualável gesto de AMOR.
Por Guiomar Barba
30.06.2016
“Fui chamada para servir, e no serviço encontrei a luz.”
Por caminhos tortuosos vagueei,
entre sombras me escondi;
de folhas tecidas me vesti,
quando a Tua voz eu escutei.
Não poderia acreditar
que teu amor iria me encontrar
nos teus braços me envolver,
com teu perdão me acariciar.
Esta graça não Te bastou
agrupaste-me para servir-Te;
puseste sandálias nos meus pés;
de pão partido encheste as minhas mãos.
Levaste-me por trilhas sombrias,
famintos resgatei para Ti,
prantos ouvi, lágrimas enxuguei,
benditos goles de vida levei.
Leva-me por escombros ocultos,
mostra-me os cegos desvalidos;
que eu seja as tuas mãos saciando
as pobres almas destes aflitos.
Por Guiomar Barba
22.07.2016


MAMÃE


Que é isto?
Pensei que encontraria
balões subindo,
a quadrilha acontecendo,
a noiva assanhada,
quase parindo.

O pai exibindo a peixeira
luzindo na cintura,
o noivo molenga,
por trás da saia do padre,
trêmulo, se escondendo.

A mãe da noiva
obrigando a polícia a fazer
o tal do casamento.

Foi tudo uma ilusão?
Não era São João?
O céu estava tão escuro...

Encontrei você esculpida
numa pedra de mármore,
talhada pela morte.

Pedi sua última lição,
mas seus lábios estavam
Lugubremente cerrados.

Mamãe!
Supliquei tanto que você esperasse,
mas cheguei tão tarde...
Não encontrei seu olhar,
sequer ouvi
seu último suspiro.

Não me enganei, mamãe:
era São João ou São Pedro...

Os balões subiram;
os noivos casaram;
a mãe caiu no forró;
o pai da noiva
estava bem animado;
a matutada dançou;
a polícia gostou;
as fogueiras queimaram.
Os fogos enfeitaram
o meu céu escuro.

A vida continuou.
Mas você, mamãe,
Por que não me esperou?
Está doendo tanto...

Os sinos dobraram:
Mamãe. Mamãe. Mamãe.
Por Guiomar Barba
14.07

DOR

Lateja meu coração sofrido
Como uma ferida inflamada.
Dominada por secreção amarelada
Que se recusa a sarar.
Que dor esta, mais pujante...
Dilacera-me o peito,
Esmaga-me o espírito,
Prende-me a respiração.
Fui cortada desde o umbigo.
Engatinhei sobre pedras.
Cresci entre flores silvestres,
Corri atrás das borboletas.
Armei meu próprio céu de estrelas,
Tirei notas do rugir do vento,
Refresquei-me nas tempestades,
Ganhei cor sob o ardor do sol.
Nenhuma pedra atalhou meu caminho.
Nem noites escuras me fizeram tropeçar.
Mas esta dor inclemente me alcançou.
E eu não paro mais de sangrar.
Guiomar Barba.