sábado, 28 de outubro de 2017


VENCIDA A MORTE (Homenagem a D. Ivanise Soares)

Arrebataste morte, vida indefesa?
Zombaste das festas e risos em família?
Arrancaste dos braços do amor
uma pomba frágil, ferida?

Deixaste seus filhotes em agonia?
Seu companheiro aturdido?

Acaso te esqueces que a tua força
não invade a eternidade?

Tragas vidas com garras cruéis,
entenebreces céus azulados,
tramas tecidos negros —
e com eles cobres tuas vítimas.

 Alimentas-te da dor do luto, 
oferecendo banquetes aos vermes.

Mas serás tragada pela vitória,
no grande dia da ressurreição!

Por Guiomar Barba.
18.08.2014
CONTRASTE
Chove abundantemente
no meu Capibaribe.
Os lampiões escurecem as noites.

Vago pelo silêncio das ruas
Escutando o gemido da fome.
São corpos sob as marquises,
apertando os joelhos no estômago.

No luxo dos condomínios,
lá do outro lado da Veneza,
deitados em berços esplêndidos,
sob colchas quentes de inverno,
ao som do mar sereno,
 iluminados, com mesas fartas,
degustam pratos com trufas brancas.
A esperança das calçadas se escorrega
Pelas enxurradas que vão a paraísos.
São as águas da cobiça, fechando o verão.

Brasil de amor eterno...
Entre as pedras dos condados,
rochas submersas no lodo político,
Apagam as chamas que bruxuleavam.
Por Guiomar Barba
02.07.2015

QUEM SOU EU

Não me chamem de poetisa,
nem mesmo de inspiração;
resulto apenas de devaneios,
de multidões de interrogações.

Sou passos que vagam perdidos entre a multidão.
Sou olhos que perscrutam a potência da escuridão.
Sou pedras no meu próprio caminho.
Sou brisa, sou relva, sou sol.

Posso voar com pássaros,
posso cantar com os rouxinóis.
Deleito-me com fases da lua
Gosto de ouvir o ribombar dos trovões,
dos relâmpagos ao arco-íris,
sinto diferentes sensações.

Sou força, sou fragilidade tamanha,
desfaço-me em muitas lágrimas,
reconstituo-me em gargalhadas,
Sou eu, sou ela, sou nós!
Agora eu se.

Guiomar Barba
01.01.2016



DETERMINAÇÃO
Se não existem ouvidos sensíveis à minha pausa,
por que deixar que a amargura seja a nota desferida?
Melhor calar as vozes com meu próprio silêncio,
abafando sons distorcidos que confundem a alma.

Envolver-me no sopro acariciante da meditação,
fragmentar-me dentro de mil questionamentos,
envolvendo cada partícula em respostas plausíveis,
saboreando cada dúvida na promessa do amanhã.

O amanhã não tem pressa —  ele surge antes de nascer o sol
que morreu para o ontem. Talvez sem nuvens, ou sombrio,
não me desgasto com previsões: sinto a carícia do novo,
que transformarei numa embriagante taça de vinho.

Sorverei cada gota do cálice, conferindo sabor ao paladar;
não serão de prazer os meus anseios — isto é pura ilusão.
Se amargo, me aguçará os sentidos; transcenderei a visão,
Trilharei em demanda de sonhos reais, nunca esquecidos.

Sou obstinada, eu sei. Não meço o caminho, não vejo a noite;
espanto os fantasmas e piso as sombras sem sobressaltos.
Não temo o piar da coruja, os mitos das florestas escuras —
vejo o céu deslumbrante, mesmo cor de chumbo e sem festa.

Se eu regressar da minha longa caminhada, virei sorrindo:
não deixarei nada para cumprir no amanhã, que talvez nunca virá.
Se perceberem que não retornei, estou feliz. —
não era uma quimera o que há tempos eu perseguia.

Por Guiomar Barba.
01.02.2012



16 comentários:
Eúde Amor 1 de fevereiro de 2012 21:14
Gente, eu tenho uma amiga poeta!
"...transcenderei a visão
Trilharei em demanda de sonhos reais nunca esquecidos..."
Esse é o verso que mais se encaixa à minha realidade. Amei!
Guiomar Barba 2 de fevereiro de 2012 09:34
Qui bom você aqui. Você foi meu segundo amigo virtual que já faz parte do meu mundo real,kkkkkkkkkkk
Persiga seus sonhos, eles poderão se tornar tão reais quanto você é real. Beijo.
Rô 2 de fevereiro de 2012 14:00
Eita mana, ta bom demais hein?
O amanhã não tem pressa, ele surge antes de nascer o sol Que morreu para o ontem.
Que tal esperemos o novo sem medo? Bjim!
RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ 2 de fevereiro de 2012 21:11
"(..) O amanhã não tem pressa, ele surge antes de nascer o sol
Que morreu para o ontem (...)"
Olá, amiga!
Biblicamente falando, é isto aí.
O novo dia começa com o por do sol e passa uma boa parte do tempo sendo "gerado" pela noite.
Sem dúvida que para renascermos, precisamos também morrer para o ontem e as coisas ruins que para trás vão ficando.
Muita luz em seus caminhos!
Paz.
Guiomar Barba 3 de fevereiro de 2012 19:23
Rô, esta é nossa alegria saber que sempre teremos um novo dia. Beijo
Guiomar Barba 3 de fevereiro de 2012 19:24
Rodrigão, é bom demais ter você de volta.
"Se o grão de trigo caindo na terra não morrer fica ele só, mas se morrer dá muito fruto."
Beijo.
Eduardo Medeiros 4 de fevereiro de 2012 13:07
Antes de mais nada: APLAUSOS!!!!
Ah, a poesia...como ele tem energia própria e presença onipresente ainda que intangível aos dedos. Não existe quimera para quem caminha, pois o próprio caminho já em si, realidade tangível aos pés.
Lindo, amiga.
O espírito poético também me envolveu ontem a noite e comentei uma música-poema também com versos(não tão belos como os teus).
depois vai ver. selecoesdoedu.blogspot.com
beijimm
RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ 5 de fevereiro de 2012 02:50
Pois é. Precisamos morrer para o ego. E, enquanto cultuarmos a nossa própria vida, digo, nossos interesses pessoais num contexto de egolatria, não encontramos a vida (ou o sentido de viver).
Guiomar Barba 5 de fevereiro de 2012 17:49
Edu, fui lá e li seu comentário, ele tem a sensibilidade dos poetas. Você tem o brilho dos inteligentes além da alma aguçada para o subjetivo que se aninha na alma do poeta.
Beijo amigo, é bom ter você.
Eduardo Medeiros 6 de fevereiro de 2012 20:42
Obrigado, querida, é recíproco!!
Mariani Lima 7 de fevereiro de 2012 17:45
Gui, determinação é uma força indispensável para romper com nossas dificuldades. Vou seguir esse verso, não medir o caminho e nem temer a noite.
Bjins!!!Linda poesia.
Guiomar Barba 7 de fevereiro de 2012 20:09
Minha amiguinha querida, "Não temas porque Eu estou contigo, não te deixarei, não te desampararei."
Tenho certeza que Ele cumpre e você também sabe desta verdade.
Beijão.
Levi Bronzeado 8 de fevereiro de 2012 22:47
Sua poesia está simplesmente arretada, como diz o nordestino quando quer elogiar (rsrs)
Mas gostei muito desse trecho poético, talvez por combinar com minha alma herética:
Não me desgasto com previsões, sinto a carícia do novo
Que o transformarei numa embriagante taça de vinho
Bravooo!!!
Guiomar Barba 9 de fevereiro de 2012 13:55
kkkkkkkkkkkkkkkk Levi meu grande poeta herege, irreverente. Te amo.
Beijo.
Anônimo 19 de fevereiro de 2012 13:21
minha mulher é poetisa mesmo, felicidades, te amo mucho, fico feliz quando as pessoas reconhecem teu talento (soy tu fan)
David
Guiomar Barba 29 de fevereiro de 2012 18:22
Meu marido, sem você não haveria poesias.
Te amo.

Ó Deus! Faz de mim um vaso novo!!!
Quando Deus quer treinar um homem, entusiasmar um homem, capacitar um homem;
Quando Deus quer moldar um homem para desempenhar o papel mais nobre; Quando Ele anela de todo o coração criar tão grande e valente homem
Que ao mundo todo assombre;
Observa-lhe os métodos, observa-lhe os caminhos.
Como aperfeiçoa implacável a quem regiamente elege.
Como o forja e fere, e com golpes poderosos o converte
Em formas experimentais de argila que só Deus entende,
Enquanto seu coração torturado chora e suas mãos súplices se erguem. Como ele se curva, mas nunca quebra, quando de seu bem ele se encarrega.
Como Ele usa quem escolhe e com determinação o funde,
E com atos poderosos o induz a experimentar seu esplendor.
Deus sabe aonde quer chegar.

Autor?
08.07.2016

ABORTO



A vida é feita de escolhas
A morte também
A liberdade tem um limite:
A vida de alguém!
Ao decidir por você
Não use de covardia
A morte do inocente
É ausência de alegria
Se ele não pôde sorrir
Se ele não pôde amar
Que direito é este
Que lhe permite matar?
Bendito é o fruto
Do seu ventre
Vida preciosa e sagrada
Ser Indefeso, feito gente!

Por Gilberto Begiato
04.08.2013
REVELA-TE NAZARENO

Tomé conheceu o teu poder e a tua graça
Testemunhou os teus grandes milagres e curas
Experienciou o teu amor sempre incondicional
Quando contemplavas as multidões exaustas, sofridas

Tomé caminhou contigo passo a passo, na vida
Sabia que nunca negaste com o teu proceder
As palavras que como orvalho, a todos destilavas.
Tua perfeita coerência a favor de Ti confessava

Ele escutou a promessa que vencerias a morte
Tomou contigo do último cálice de vinho
Comeu do pão que repartistes entre todos
Soube quando Judas cavou sua própria sorte.

Ele estava ali, quando derramaste as tuas entranhas
Ouviu teu brado de dor entregando o Espírito
Assistiu todo o drama cruel da natureza ferida
Gemendo pela morte injusta, do Deus justo

Mas Nazareno, Tomé precisou ver as tuas mãos
Precisou meter o dedo incrédulo no teu lado
Para reconhecer o seu Senhor, o seu Deus
E com a voz embargada, de fato, adorá-Lo

Te suplico Filho do Deus vivo, Jesus Nazareno
Mostra a este pobres desviados as tuas mãos, o teu lado
Revela-TE a eles pela tua infinita misericórdia
Para que eles não se percam no ceticismo.

Por Guiomar Barba

18.08.2016


Aquele terreno
Exposto às rudezas do tempo, às carícias do vento
À tempestade, à erosão.
É só um terreno que insiste
Na superfície, é firme , sereno
Resistiu a seca, floresceu com a chuva,
Encarou,dignamente, o tufão
No subsolo, é segredos
Águas, pedras e sombras
Magma e explosão.
Elisângela Campos
25.02.2017
             OITO DE MARÇO


Eu inalei o gás da câmera com Olga Benário
Queimei nas chamas que queimava Joana
Fogo que queimou tantas operárias
Eu sou o choro de tantas Marias
Eu senti o disparos penetrados
Nas entranhas de Dorothy
Sou a semente do sangue derramado de Margarida
O perfume exalado de Rosa
Eu senti a dor que tombou Trindade
Eu me afoguei e me molhei com Maria Isabel
Eu temo pela agonia dos estupros de
Belas, Marisa, Fernandas... Mulheres
Sou o silêncio de Antônia, Socorro, Teresas...
Senti a falta de proteção das mulheres oprimidas e violentadas
Eu sou a voz que não quer calar
Eu senti a força e a dor da bala na face de Iones
Sou as marcas da violência de Maria da Penha
Eu sofro e morro todos os dias com as mulheres.
Me renovo, me refaço
Para ser a voz das que se calam
Para encorajar as sem forças de lutar
Para erguer o pulso das que estão atadas.
Me renasço e me fortaleço
E assim seremos risos e não dor
Amor e não opressão
Paz sem agonia. Força e não medo.
Não seremos mais lágrimas
Somos rosas e não espinhos
Somos união, força, somos luta...
Somos mulheres.
(Mocinha, militante do MPA - Piauí).
                        HOMENAGEM

Para você que é poeta, Guiomar, aí vão dois versos
do poeta e dramaturgo Frederico Garcia Lorca:

Um livro de poemas 
é o outono morto: 
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes mete nos peitos
— entranháveis distâncias.

Abraços, Levi Bronzeado



IDENTIDADE


                                     
 



CREPÚSCULO

olhei, e percebi que estás crepusculando.
Não te recintas, não recuses as marcas,
os raios mais belos   projetados pelo sol que se põe.
As memórias mais profundas / retornam ao entardecer.

Talvez você tenha medo da noite escura. Da lua /
do uivo solitário dos lobos que ecoa na sua alma
Talvez tenhas visto a vida como uma equação: /
dividiste, mas esqueceste de multiplicar.

Não te culpes se falhaste na redação da tua vida;
todos nós nos cobrimos com este manto.
Quando te esqueceste, te descuidaste/
estavas nas esquinas distribuindo amor.

Quando o  dia escurece, fragiliza-nos; /
chegam, então, fantasmas oportunistas,/
trazendo lembranças sombrias, frias.
Para. Olha firme / os belos raios do sol.

Por Guiomar Barba
29.04.2017



                                 


domingo, 22 de outubro de 2017

   DAVID

A vida é única;
não posso deixa-la passar
sem que saibas — não por palavras —
o quanto és na minha vida.

Não contarei detalhes,
não falarei dos teus gestos;
direi, se possível, do teu silêncio,
onde mais encontrei teu amor.

Falarei do teu olhar perscrutador,
buscando a minha alma,
escutando as notas mais discretas,
para o arranjo de nós dois.

Quando, no amanhã eu ou você,
partir para o lar eterno
e já não pudermos dar-nos as mãos,
ficará o silêncio do nosso amor.

Por Guiomar Barba
19.10.2017

OS OLHOS DE CONSUELO

                               
                                                   

Aonde te perdestes amiga que já não te encontro?
Olhei teu corpo, teus braços, cabelos, tua boca
E em parte alguma te encontrei, nem mesmo a tua voz
Trouxe-me teu nome guardado em algum lugar da memória.

Sob teus óculos escuros estava protegido o espelho
Que me faria tocar a tua alma e reconhecer-te em segundos.
Conhecias-me bem demais, sabias desta minha sensibilidade.
Removeste o obstáculo e olhastes bem no meu espelho,

Adentrastes no mais profundo recôndito da minha alma.
Por fração de segundo nossas almas se tocaram.
As lembranças de um passado distante se atropelaram
E em silêncio reconheci a minha amiga Consuelo.

Não houve um abraço apertado, nem risos de alegria
Nem lágrimas queixosas ou interrogações prolongadas.
Estávamos em um velório alheio, mas o teu próprio luto
Nos fez calar os gestos e apenas nos sentirmos.

Por Guiomar.




FRUSTRAÇÃO


FRUSTRAÇÃO

Senti minhas mãos escorregando das tuas.
Olhei teus olhos — estavam cerrados,
Mas tua boca entreaberta
Não recebeu meu beijo.

Meu corpo trêmulo
Ardia de desejo.
Tua chama apagou —
E eu despertei.

Por Guiomar Barba. 



APRENDENDO


OUVINDO O AMOR


Brilhou sobre as minhas trevas a luz da vida.
Imiscuiu-se em todo o meu ser o Nazareno
e apontou, para os meus pés cansados,
um novo caminhar.

Ensinou-me que todas as minhas mazelas
Não poderiam separar-me d'Ele;
Que a força do seu imenso amor,
ocultava as minhas montanhas de pecados.

Mostrou-me a proximidade do céu com a terra,
insinuando que ouvia a minha voz.
Falou-me também que descia à terra,
e que eu O perceberia contemplando a natureza.

Disse-me que, no doce cantar dos pássaros,
no rugir das feras, no som dos rios,
no ribombar dos trovões ou no clarão
dos relâmpagos, Ele sorria pra mim.

Falou-me de perdão, de paz e de eterno amor.
Ensinou-me que eu poderia amar as pessoas,
mesmo quando meu coração não desejasse —
Bastava apenas, envolver-me no seu amor.

Por Guiomar Barba.






PEDRÃO



Na calçada da casa, eu até já ajudei
O Pedrão, a remover os pratos de barro
Com galinha preta e bolinhos
Era a briga pela maior clientela.

O Pedrão, paciente, tirava cada prato
Punha dentro do saco e quebrava
Ele preferia confiar no seu taco
Para garantir a grande clientela

Nos fins de semana o Pedrão nem ligava
Para os apelos de amigos, de que as músicas
Deveriam ser de pagode, e brega
Era delas que o povão gostava

Seus clientes então, aprendiam a escutar
Gente como o Chico Buarque, apreciando
A cerveja o caranguejo, a ostra com coco,
O caldinho de mariscos e o camarão

Era gente guerreira, que do salário,
Tirava para se divertir nos fins de semana.
E ali estava o Zezão, debruçado no balcão.
Não queria cerveja, queria cachaça.

Uma, mais outra, mais uma e outra
E lá se foi a consciência do homem.
No ruge-ruge, entre pedidos e pagamentos
O Pedrão sempre estava atento a tudo.

Como por instinto, ergueu os olhos para o mar,
E por um minuto observou o corpo boiando,
Mas estava tão tranquilo que inquietou o Pedrão,
Que grandalhão, com poucas e rápidas passadas,

Entrou mar adentro arrancando o Zezão pra vida.
Pedrão é esperto, conhecia a intenção maldosa
Dos espíritos, de conduzir à morte, o Zezão,
Levando-o como se fossem apenas as ondas do mar.

Por guiomar Barba                    

PAI




Abraça-me como Pai e não como Deus ou Senhor.
Deixa-me apoiar meu rosto em Teu peito e encharcá-lo de lágrimas.
Já me afogo no meu pranto, enrouquecida estou pelo meu lamento.
Intumescidos por abundantes lágrimas, afundaram-se os meus olhos.

Meu coração anseia a Tua, somente a Tua presença.
Nenhum consolo poderia dar-me alento se não, procedentes de Ti.
Minha esperança teima em fugir como um pássaro assustado.
Agarro-me a ela com todas as forças que ainda me restam.

Sem ela, o que seria de mim no passar dos dias?
Romper-se-ia minha vida como um frágil vaso de cristal,
Dormiria o sono eterno de todos os mortais,
Antes que o meu cálice vermelho de odor irresistível se esvaziasse,

Seria em meio aos meus dias como uma abortada pela vida.
Dá-me Tua vida de exuberante alegria para que eu Te louve.
Quero dançar e sorrir ao som de instrumentos variados.
Quero embriagar-me com o gozo dos Teus cuidados.

Deixa a Tua doutrina destilar como orvalho em meu coração.
Consumir toda a escória e embranquecê-la até a transparência.
Quero que o meu viver se confunda ao Teu, e seremos Um.
Aquieta este meu desassossegado coração, trazendo-me paz.

Envolve-me na Tua paternidade, e não me deixes órfã.
Preciso da Tua sabedoria destilada, embebendo todo meu ser.
Tenho sede de Ti, meu coração está ressequido, o sol me queima.
Não há sombras pelo meu caminho, os meus pés vacilam.

Desfalece a minha alma suspirando pela Tua presença.
Não Te demores mais, amigo da minha alma, dá-me vida.
Abraça-me como Pai. Sou Tua! O sangue do Teu filho está em mim.
Estou atada a Ti por laços eternos que não se podem romper.
Pai, Pai, Pai. Sou Tua filha, Tu me gerastes!

Por Guiomar Barba.

INGRATIDÃO



                                           

Pai,
eles dizem que na cruz

Tu abandonaste teu único filho,
porque nunca soubeste ser mãe.

Eles não entendem que Jesus

não foi egoísta como o irmão do filho pródigo,
que Ele jamais ambicionaria
Uma festa apenas para Si.

Eles não conseguem ver
Que fora do curral, noventa e nove ovelhas
Sofriam fome, sede, frio, e cruel solidão;
e que apenas o pão sem fermento, partido,
 poderia saciar aquela antiga fome,
e o vinho vertido, jorrando do filho,
poderia trazer liberdade aos cativos.

Assim, então, aconchegadas sob as tuas asas, 
cada ovelha teria calor, teria um Amigo.

 Cruz, sangue, morte, abandono.
Corpo partido, vinho vertido em abundância, 
 oferecido em maravilhosa graça
transformou Jesus na nossa páscoa.

Por Guiomar.

SEMPRE SEREI EU


Se descobres a minha nudez
pelo prazer de mostrá-la,
não estarias cobrindo a tua
com os meus próprios trapos?

Não te escondas sob meus trapos
pelo pavor de que te vejam nua;
porque, por serem tão meus estes trapos,
serão reconhecidos por quem me ama.

Afasta a tua culpa, e encara a tua nudez —
ela será menos feia que meus trapos.
A transparência sempre é cheia de luz;
ou deixa que te amem com teus próprios trapos.

Se a forma com que te mostrares
afastar os teus “melhores amigos,”
não sofras, não lamentes — entende:
eles ainda não estão prontos para amar.

Por Guiomar Barba.



REPRESSÃO


REPRESSÃO
Amordacei os meus desejos
nesta distância negra de continente.
Desenlacei as nossas roupas,
busquei o rastro do teu perfume —
ele se havia evaporado contigo
entre densas nuvens brancas.

Estremeci no quarto vazio;
troquei os lençóis molhados de amor.
Deixei que o vento abrisse as cortinas.
Me atirei na cama, silenciosa,
lavei meu rosto com lágrimas —
o tempo se encarregou de secá-las.

Mas dentro do meu peito intumescido
tem um poço quase transbordante.
Se tu voltares mais cedo,
impedirás que este poço extravase —
pode ser a última gota de lágrimas.

Por Guiomar Barba











NORDESTE

Por que racha a terra no meu nordeste,
Enquanto no céu azul brilham estrelas?
A abóbada celeste parece zombar da terra
Com sua imponente e grandiosa beleza.

O sabiá fugiu com suas canções
Porque o céu não mandou chover.
O gado com olhar velado de desalento
Exprime no berro agoniado a sua fome.

Foram-se os xexéus, as ribaçãs. Chora a cauã.
O bacurau triste, dentro das grotas,
Solta suas notas de dor, de aflição.
A natureza geme neste misterioso cemitério.

Secam-se os riachos de água suja.
Morre o feijão, o milho, a mandioca.
O feijão guardado que nutria esperança,
Na panela cozinha suas últimas sementes.

O moleque com os olhos lacrimando
Agarrado na velha saia da mãe,
Com o estômago roncando choraminga:
Mãe eu quero cumê.

Não tem dor que doa mais que esta.
Nos olhos tristes do pai se ler a promessa:
Meu filho, de fome tu num vai morrer.
Sem rumo, vamos estrada a fora.

Deixando para trás a vida que está morta
Levando no peito um poço seco
Na garganta um grito preso
Em todo o corpo, apenas sertão.

Por Guiomar Barba.



https://youtu.be/oPOmb05_4gQ

UM ÚNICO COPO

Lembro-me bem daquela noite,
Ele entrou bem devagar,
Alquebrado
Sentou conosco na roda
E não esperou convite.
Rompeu num soluço abafado:
“Não tomem o primeiro copo!”
E desatou em um choro
Que evidenciava dor, desespero.
Seguiu entre soluços cortados:
“Vivi vinte anos sem um gole,
Ajudado pelos alcoólatras anônimos.
Acreditei que estava curado
E tomei um único copo,
Foi minha desgraça!”
E sem dominar o choro,
Convulsivo bradou:
“Não consigo mais parar!”

Quantos anos teria?
Estava violentado pelo vício.
Controlado sob a tirania
Daquela dependência maldita.
Mas o seu coração bom
Não se rendeu a degeneração,
Queria salvar vidas do horror,
Das garras impiedosas do álcool.
Era um profeta descobrindo-se
E bem que alertou naquela noite,
Mas alguns não o escutaram
E agora, não conseguem parar.

Por Guiomar Barba