domingo, 22 de outubro de 2017

UM ÚNICO COPO

Lembro-me bem daquela noite,
Ele entrou bem devagar,
Alquebrado
Sentou conosco na roda
E não esperou convite.
Rompeu num soluço abafado:
“Não tomem o primeiro copo!”
E desatou em um choro
Que evidenciava dor, desespero.
Seguiu entre soluços cortados:
“Vivi vinte anos sem um gole,
Ajudado pelos alcoólatras anônimos.
Acreditei que estava curado
E tomei um único copo,
Foi minha desgraça!”
E sem dominar o choro,
Convulsivo bradou:
“Não consigo mais parar!”

Quantos anos teria?
Estava violentado pelo vício.
Controlado sob a tirania
Daquela dependência maldita.
Mas o seu coração bom
Não se rendeu a degeneração,
Queria salvar vidas do horror,
Das garras impiedosas do álcool.
Era um profeta descobrindo-se
E bem que alertou naquela noite,
Mas alguns não o escutaram
E agora, não conseguem parar.

Por Guiomar Barba

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